Categorias e regras de BDSM

Categorias e regras de BDSM

O ABC do erotismo agressivo começa a partir da compreensão dos substratos psicológicos e fisiológicos aos quais se refere a própria denominação: Bondage&Discipline, Dominance&Submission, Sadism&Masochism.

 

Bondage&Discipline (B/D) explica muito mais do que o raporto de poder entre os parceiros, das propensões aos papeis activos ou passivos, para realizar ou beneficiar dos “tratamentos” oferecidos na intimidade. A esse nível as pessoas são livres de oscilar, pois não há uma regra segundo a qual o dominate seja a parte activa, enquanto o submisso for componente passiva. O contrário é igualmente possível, já que realizar uma determinada acção não significa necessariamente o “privilégio” (concentrado na constância) de manter o controle da acção.

O termo “bondage” designa a opção de apimentar o menu no quarto através da limitação da liberdade física do outro, atando as suas mãos e/ou os pés (com algemas, correiras, cordas, vários dispositivos fixos etc.), separando-os ou fixando-os com um determinado objecto, ou imobilizá-lo com vários instrumentos ou sistemas especiais. Em certa medida, desta técnica gostam também os casais comuns que muitas vezes são tentados a improvisar ou a introduzir novos elementos no seu universo erótico, comprando algemas fofos de pelúcia ou usando vários tipos de echarpes para atar as mãos, os pés, os olhos. A diferença é que para os casais BDSM a estratégia é fortemente enraizada na rotina sexual, em contínuo aperfeiçoamento e treinos sistemáticos “especializados”.

As acções físicas do tipo “bondage” são completadas pela componente psicológica de “disciplina” que um dos participantes usa para excercer controle no comportamento do seu parceiro, aplicando regras, estabelecendo punições, humilhando, com consequências para a integridade corporal do outro, tudo isso apenas para alimentar o mecanismo de funcionamento que os dois acordaram afim de alcançarem a satisfação.

As decisões sobre o que o parceiro activo pode ou não fazer são sempre tomadas comunemente, sem intervenções repentinas e radicais, capazes de surpreender de forma negativa, ferir ou ignorar os limites estabelecidos.

 

Dominance&Submission (D/S) inclui a submissão e a relação psicológica relacionada a isso, entre dois praticantes desiguais a nível de poder, manifestada no espaço pessoal ou mesmo além dos seus limites. O objectivo é alcançado através de uma série de jogos sexuais, incluindo: os jogos de idade, os em que a pessoa joga o papel de animal de estimação, os de educação (baseados no sistema clássico de punições e recompensas, que é adaptado porém a esse contexto), os jogos que estimulam a rejeição sexual do parceiro e mesmo a escravidão, que é uma expressão capaz de ser observada em público também, através do uso de colares, piercings sugestivos, tatuagens ou outras “demonstrações-símbolo” da sua submissão, aceitando ser a “vítima” (notória) de uma troca total de poder.

É impossível, no entando, convertir-se para esta doutrina “revolucionária” sobre as relações e o seu bom funcionamento, sem que haja uma confiança absoluta na outra pessoa. Permitir a alguém de manifestar a sua vontade mesmo nas mais nevrálgicas profundezas das experiências sexuais é, sem dúvida, uma performance que só pode ser realizada através de determinadas condições, ou seja quando expressa credibilidade, segurança e interesse, não apenas para si mesmo, mas para o processo inteiro que quer realizar para deliciar os sentidos comuns.

Considerando os riscos que esse tipo de situações extremas implicam (a ausência de boa vontade de um dos participantes, a falta de experiência, o egoísmo, a incapacidade de gerir as saídas para fora do “papel”, o monopólio dos instinctos), a prevenção desempenha um papel particularmente importante. A esse respeito, foram concebidos e implementados os chamados “contratos”, onde as partes envolvidas declaram, antes de todo, o seu consentimento, negociam as preferências e também as suas (in)habilidades, delineando as regras do jogo, para que a atmosfera além de ser sensual, seja também segura.

Embora não sejam juridicamente vinculativos, esses contratos poderão ser assinados ou “autorizados” informando uma terceira pessoa, formalmente investida da qualidade de testemunha. Deste ponto de vista, nas “aventuras” BDSM a ousadia de seguir o impulso (como por exemplo fazer sexo ao primeiro encontro ou implorar ser chicoteado ou punido pela “desobediência” por qualquer desconhecido) não é uma prova de um racionamento muito brilhante, digno de qualquer prémio ou parabéns. Explorar o terreno é, portanto, mais do que imperativo.

 

Sadism&Masochism (S/M), a terceira componente importante do BDSM, é também a mais representativa, sobretudo quando é considerada do ponto de vista da sua popularidade. O interesse pelo sofrimento é famoso quando se fala do erotismo específico para esta categoria, já que a dor não é encarada como objectivo, mas sim como meio dos esforços feitos para atravessar uma grande variedade de estados e situações adjacentes à própria prática (a humilhação, a dependência, a obediência, a vulnerabilidade, o controle). Cada um dos parceiros, tanto o sádico (a pessoa que provoca a dor), como o masoquista (a pessoa que recebe a dor), respeita um “regulamento” bem concebido e não se deixam levar pelas acções ao acaso, que poderiam afectar irreversivelmente a integridade pessoal de um deles.

Geralmente os sádicos são participantes activos e dominantes, e os masoquistas passivos e submissos, mas pode haver situações em que esse raporto seja de tipo neutro, sem flertar descaradamente com as diferenças de poder. Mas independentemente do “protocolo” que seguem (que, apesar da sua aparente rigidez, é capaz de ter várias formas), as relações desse tipo nunca se afastam (ou pelo menos não deviam afastar-se) de dois princípios fundamentais: o consentimento e a segurança.

O consentimento informado representa sempre o primeiro passo que deve ser dado antes de qualquer coisa, a base e o ponto de partida de toda a “história de amor”, e a segurança é o elemento que afasta o caos e os inconvenientes que podem ocorrer progressivamente. Afim de manter um ambiente mais livre de qualquer perigo, quando um dos parceiros sente-se esmagado, os praticantes de BDSM recomendam usar “palavras de segurança” (como relevante no plano real foi também estabelecido um código metafórico das cores que determinam a importância das expressões: o “vermelho” indica o desejo de parar uma determinada acção e o “amarelo” pede diminuir a intensidade do tratamento aplicado). Mas a gradação pode ser substituída por quaisquer outros termos de comparação ou com uma série personalizada de equivalentes não-verbais, úteis quando eles estão impossibilitados volontariamente de falarem.

Mesmo se o mito afirma que para o BDSM não há prazer sem dor, como se na ausência de estímulos ofensivos, os praticantes desses jogos não pudessem chegar a qualquer tipo de clímax, a realidade é que a “tortura” não constitui o elemento “chave” desse processo, mas apenas uma peça (central, é verdade) de um mecanismo muito mais complicado no alcance da satisfação. Mas nem todos os “esquemas” desta gama exploram a indulgência humana frente à dor física. A fazer isso são apenas aqueles concebidos em torno da idéia de S/M, que admite qualquer tipo de “loucura”, desde que esteja na lista dos limites suportáveis mencionados no contrato e corresponda à maneira própria de libertar as endorfinas e a adrenalina, que pelo menos um dos participantes sente.

Quer que sejam exclusivas e a longo prazo, ou “de flor em flor”, quer que sejam a pagamento ou não (há também profissionais dominantes/submissos que oferecem os seus serviços a pagamento), as relações deste mundo fantástico respeitam geralmente o mesmo padrão: ocorrem num lugar chamado de “cena” (termo que ao mesmo tempo se identifica também com a própria acção), numa maneira considerada “jogo” e durante um tempo determinado, denominado “sessão”.

O lugar pode ser público ou privado. Geralmente são preferidos aqueles espaços especialmente designados nos clubes especializados, as “masmorras” sendo consideradas o paraíso do BDSM (graças à multidão de equipamentos eróticos à disposição dos interessados, mas também à permissividade implícita para com as abordagens exibicionistas/voyeuristas), ou as habitações pessoais de pessoas que organizam durante o seu lazer, “por sua livre e espontânea vontade”, os eventos dedicados à celebração desse estilo de vida, desde que sejam respeitadas seriamente duas regras não negociáveis: proibir o acesso de menores e consumo de álcool ou outras substâncias proibidas por lei. Mas, mesmo se não tiverem vários adereços em casa, adequados ao seu jogo, muitos não sonham com estes momentos de exposição pública dos seus “pontos fracos”, contentando-se com a familiaridade da própria casa, com os instrumentos comercializados tradicionalmente e com uma imaginação livre, que deixam voar sem medo, fora do “quadro”.

Se no passado costumava-se pensar que os actos sexuais fiéis ao sado-masoquismo fossem mantidos devido a problemas de comportamento cuja solução fosse competência medical especializada, hoje em dia este fenómeno, que apesar de se ter livrado parcialmente das limitações que o relacionavam às doenças mentais, continua a despertar suspeitas e desaprovação a nível de percepção global. Um progresso enorme para a sua “normalização” foi a eliminação dessas práticas do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais que vários países da União Européia fizeram (a primeira entre os países que fizeram esta “maravilha” foi a Dinamarca no 1995, seguida pela Suécia em 2009, Noruega em 2010, Finlândia em 2011). A mudança ocorreu gradualmente. Aquela pressa que os psiquiatras do século XIX tiveram em diagnosticarem cada actividade sado-masoquista como gravemente desviante dos padrões de saúde mental e emocional de um indivíduo, foi diminuindo gradualmente. O “distúrbio” tem vindo a ser considerado como tal apenas quando produzia efeitos de inadaptação social e profissional entre os pacientes ou, mais tarde, quando tinha interferências negativas com o bom desenvolvimento da vida de outra pessoa, sendo também responsável pela violação do consentimento dessa pessoa.

A nível legislativo, não há uma abordagem uniforme em relação à condenação das relações de tipo BDSM, as disposições indirectamente relacionadas com esses factos sendo diferentes consoante cada país e ambiente socio-cultural da área geográfica em questão. Mesmo que, em princípio, as normas jurídicas não façam referência directa àquilo que hoje em dia se entende por todas as práticas eróticas neste domínio, há legislações como aquela americana que condenam os actos de flagelação, quer que sejam ou não o resultado de um acordo comunemente expresso. Mas, além este excesso de zelo que alguns estados fazem, a existência de um consentimento informado faz, em princípio, a diferença entre delito ou abuso e a actividade privada, livre de qualquer explicação a qualquer tribunal juridicial. Mas a permissividade da lei (caso exista) para esta realidade não isenta as pessoas directamente implicadas da responsabilidade de se documentarem sobre esse assunto e a maneira (diferenciada) em que é considerado pelas variegadas justiças “imparciais”.

Independentemente da interpretação normativa ou medical que as pessoas atribuem a esse estilo de vida, os seus apoiantes preferem a maioria das vezes manter segredas as suas paixões eróticas pessoais, já que a pressão e o carácter coercitivo da sociedade “assustada” e defensiva perante o conceito de diversidade sexual, faz-se sentir com intolerância e firmeza. Portanto, a discrição caracteriza a vida tumultuada dos simpatizantes do BDSM. Apesar disso, as tentativas científicas de entender essa questão, fazem prova de uma atracção sempre maior, natural, de pessoas “comuns” para tudo o que há além da familiardade de um acto sexual típico e monótono.

A tentação do “fruto proibido” está operando a plena capacidade também nessa zona considerada “tabu”. Então, como o mostram os estudos de especialistas, não são poucos os que dizem ser interessados nos aspectos menos conformistas das relações físicas. A tendência é evidente também quando se olha na direcção das componentes auxiliares que foram criadas em torno deste universo nada insípido e simplista: organizações, clubes e sites especializados, iniciativas mercantis de sucesso que tornam acessíveis para todos os comuns mortais os “brinquedos” indispensáveis nos quartos desencadeados, grupos de apoio que confortam as almas dos incompreendidos com fraquezas particulares, tudo isso num único lugar, revelando a existência de uma procura nada insignificante.

Mas a difusão do fenómeno acontece no entanto em silêncio, mostrando apenas raramente excessos públicos ou formas evidentes de promoção. E o motivo principal de favorecer o anonimato e a invisibilidade contra a transparência, é o medo de ser rejeitado, condenado e acusado brutalmente. As pessoas condenam facilmente tudo o que vai para além do horizonte de compreensão e afinidades próprias, e isso faz com que os que não correspondem à paisagem geral, corram muitas vezes o risco de se tornarem o objectivo de comportamentos exagerados (na vida pessoal, profissional ou social), sendo discriminados, marginalizados, severamente culpabilizados, às vezes até pela própria família ou paradoxalmente (influenciados pelos pares)... por eles mesmos.

A situação é, geralmente, o resultado da combinação de estereótipos, mitos e preconceitos que persistem como um odor podre e desagradável, apesar da emancipação da mente que a sociedade contemporânea sente-se orgulhosa de ter. Entre estes, as fixações mais fortes continuam pensar (ainda) que “apenas uma pessoa que tem um psíquico desequilibrado é capaz de ter esse tipo de comportamentos sexuais, que a motivação para as suas acções é um grave apetite pela violência (não só no quarto, mas também para fora), um abuso na infância, uma auto-estima incompleta (no caso dos submissos), uma obsessão incontrolável para a dor...” e muito mais. Factos que, apesar de não ser uma regra, podem ser verdadeios, mas apenas de forma arbitrária, sem revelarem uma relação consistente sobre a causa e o efeito.

A principal razão pela qual o amor “duro” é condenado a nível atitudinal, além da sua associação à patologia, tem a ver com o medo que os habitos privados não cheguem no espaço público também, contribuindo dessa forma ao indesejável aumento do número de infracções. Muitos vivem pensando que a paixão pelas actividades eróticas inconformistas é uma espécie de animal selvagem que deve ser amarrado ou, melhor ainda, preso numa gaiola para impedir-lhe que cause estragos entre as pessoas tranquilas e inocentes. Mas os estudos realizados no campo não revelam qualquer relação entre os materiais pornográficos ou qualquer outro tipo de exibição desenfreada dos comportamentos BDSM e a violação da lei, para não mencionar que a idéia de “inocente” (pelo menos a nível mental) é apenas uma ilusão alimentada pelos hipócritas, por razões igualmente hipócritas.

Esta paixão pelas “coisas diferentes” não é, portanto, uma espécie de micróbio que se espalha independentemente da vontade pessoal das pessoas em causa, um determinismo que condena todas as pessoas que entram, de uma forma ou outra, em contacto com as várias manifestações deste fenómeno. É apenas a expressão de umas preferências assumidas de forma madura. Os casos patológicos já fazem parte de uma categoria separada, e não têm a ver com a própria estrutura da subcultura, mas com alguns traços individuais, vulneráveis aos abusos.

Outros argumentos contrários, para além daqueles que alertam contra o perigo associado a essas práticas, têm a ver com o alegado estatudo inferior das mulheres nessa história. Muitos críticos acolheram as idéias de um grupo de feministas dos anos ’70, preocupadas principalmente com as repercussões do sexo praticado sob os auspícios das tendências do tipo BDSM: a vulnerabilização da mulher frente aos actos de violência extrema, reduzindo elas ao estado de scravo sexual ou continuando comportamentos misóginos, incompatíveis com a agenda actual de erradicar as desigualdades de gênero.

Há, em contraposição, os argumentos em favor, que enfatizam a importância da liberdade de decisão, própria tanto aos homens como às mulheres, mas também a soberania da liberdade de explorar e redefinir a sexualidade, os limites no amor, os tipos de interacção no interior do casal. E as alegações finais baseiam-se no princípio de viver de acordo com os desejos interiores, não com os padrões rígidos dos outros.

Podia ser de outra maneira, já que o desejo humano de ir sempre mais longe e desafiar sempre os seus limites é, afinal, inato?

Portanto, é possível dizer que o fenómeno está crescendo, não diminuindo, e a uniformidade começa a despertar sensações de insatisfação naqueles que o praticam com a precisão dum relógio suíco, favorecendo mudanças drásticas de opção e paisagem.

Aqueles que são dispostos a variarem o registro erótico e aprenderem os papéis eróticos de uma peça tumultuada BDSM, devem considerar também que este playground embora ofereça muito, é arriscado, complicado e delicado, tudo ao mesmo tempo. E o que se deve fazer antes de penetrar a zona “proibida” é estudar a teoria, acumular informações, visitar os sites especializados e todas as facilidades (fóruns, cursos, folhetos, etc) destinadas a abir os seus olhos e a sua mente. Pois aventurar-se num jogo com algemas, roupa de couro e olhos vendados é capaz de ser por algumas pessoas muito mais dramático do que se apresentrar num exame de geometria descritiva sem ter nunca antes aberto o livro. Portanto, conhecer a questão é fundamental e não é possível fazê-lo à medida em que esta éfeita, formal ou superficialmente. Tudo deve passar pelo filtro do juízo pessoal.

Esclarecer os mistérios, obter respostas às perguntas, harmonizar as preferências dos dois, ter as elucidações que cada um precisa ter, ir ao centro das múltiplas necessidades que um estilo de vida assim implica nos seus representantes (a nível físico, psíquico, emocional, relacional, social) não são apenas detalhes a tratar como termos e condições de um contracto qualquer (sem valor ou consequências importantes) que de facto ninguém tem paciência de ler inteiramente antes de assinar. Estas são etapas preliminares, absolutamente indispensáveis por aqueles que são tentados em colocar na realidade as fantasias onde praticam as suas habilidades de manobradores de chicote ou de portadores elegantes de máscaras de látex. A paixão por essa forma de comunicação erótica com certeza que ultrapassa a previsibilidade e a segurança de outros passatempos para dois, como cozinhar juntos, comer pipoca assistindo Tv ou ir às compras.

Não é importante apenas a teoria, mas também a pessoa com a qual a teoria transforma-se em prática. Escolher o parceiro não deve ser uma questão deixada ao acaso, aos caprichos momentâneos ou ao destino, pois um episódio sexual com um substrado BDSM não é tão inofensivo como ir ao cinéma ou ao restaurante, que pode ser feito com qualquer um. A pura confiança é uma condição sem a qual não é possível continuar, geralmente, nenhuma relação humana, ainda menos uma desse tipo (uma interdependência onde a fusão física, psicológica e emocional faz cair qualquer padrão tradicional).

Informar-se e escolher sabiamente o “outro”, não tem valor algum se os protagonistas não aceitarem com convincção respeitar os compromissos negociados e assumidos conjuntamente. O consentimento é, portanto, um outro elemento fundamental que não deve absolutamente ser sujeito a pressões, deformações, enganos ou coacções de qualquer tipo. Ninguém é obrigado a fazer o quer não quiser, só por lhe ser pedido, por ver que outros fazem isso, porque o outro anseia muito a adrenalina ou porque pretende matar o tempo de uma forma nova, apesar de não ter, de facto, a mínima idéia sobre aquilo em que se envolve.

O consentimento está indissoluvilmente ligado à preservação da dignidade e autonomia pessoal, um objectivo a prosseguir independentemente do papel “hierárquico” assumido. Apesar da interpretação simplista e dos clichés, a transferência de poder não significa submissão ou anulação da individualidade, mas apenas uma nova compreensão do padrão clássico de interacção física-instictual.

* * *

Mais do que ser confundidas com a patologia, como infelizmente ainda continua a acontecer, as práticas da gama BDSM refletem não tanto a falta de inibições de pessoas “inadequadas” quanto a fraqueza da sociedade em marcar, sem ter qualquer direito de fazê-lo, modelos de pensamento e comportamento que não correspondem à mentalidade colectiva, que absolutiza com demasiada ligeireza as noções universais de “certo” e “errado”.